Judas, no grego, é traduzido por “Judá” no hebraico, recebeu o nome de seu autor, um dos quatro meio-irmãos de Cristo. Tomado pelo contexto, esse “sermão epistolar” poderia ser chamado de “Os atos dos apóstatas”.
Embora Judas fosse um nome comum na Palestina (pelo menos oito são citados no NT), o autor geralmente tem sido aceito como Judas, o meio-irmão de Cristo. Deve-se diferenciá-lo do apóstolo Judas, o filho de Tiago (Lc 6:16; At 1:13). Varias linhas de raciocínio levam a essa conclusão: o recurso de Judas ao dizer que é "irmão de Tiago”, o líder do Concílio de Jerusalém (At 15) e outro meio-irmão de Jesus (versículo 1); a saudação de Judas é semelhante à de Tiago; e o fato de Judas não se identificar como um apóstolo (versículo 10), mas, em vez disso, distinguir-se dos apóstolos.
A apostasia doutrinária e moral discutida por Judas (versículos 4-18) corresponde em muito à de II Pedro (2:1 a 3:4), e acredita-se que a escrita de Pedro antecedeu a de Judas por várias razões: II Pedro antecipa a vinda dos falsos mestres (II Pedro 2:1-23:3), ao passo que Judas trata da chegada desses mestres (versículos 4,11-12, 17-18); e Judas faz uma citação direta de II Pedro 3:3 e reconhece que é de um apóstolo (versículos 17-18). Como Judas não faz menção da destruição de Jerusalém em 70d.C., embora seja mais provável que tenha vindo depois de II Pedro (por volta de 68-70d.C.), é quase certo que a carta tenha sido escrita antes da destruição dessa cidade. Embora Judas fizesse viagens missionárias com outros irmãos e suas respectivas esposas (1 Co 9:5), é muito provável que ele tenha escrito de Jerusalém. O público exato de cristãos com quem Judas se correspondia é desconhecido, mas, considerando-se as ilustrações que ele apresenta, parece que era formado por judeus. Não há dúvida de que ele escreveu para uma região recentemente infestada por falsos mestres.
Embora tivesse rejeitado Jesus como Messias no passado (João 7:1-9), Judas, juntamente com outros meio-irmãos de nosso Senhor, converteu-se após a ressurreição de Cristo (At 1:14). Por causa de sua relação com Jesus, seu conhecimento como testemunha ocular do Cristo ressurreto e do conteúdo dessa epístola, a carta foi reconhecida como sendo inspirada e incluída no cânone Muratoriano (170 d.C.).
As primeiras questões a respeito de sua canonicidade também tendem a apoiar a ideia de que ela foi escrita depois de II Pedro. Se Pedro tivesse citado Judas, não teria havido nenhum questionamento sobre a canonicidade, uma vez que Pedro, com isso, teria dado a Judas a afirmação apostólica. Clemente de Roma (cerca de 96 d.C.) e Clemente de Alexandria (por volta de 200 d.C.) também fizeram referência à autenticidade de Judas. Seu tamanho diminuto e as citações de escritos não inspirados são responsáveis por qualquer questionamento inapropriado a respeito de sua canonicidade.
Judas viveu numa época em que o cristianismo estava sob um ataque político severos por parte de Roma e a infiltração espiritual agressiva por parte de apóstatas parecidos com gnósticos e libertinos que plantavam sementes em abundância para uma enorme colheita de erros doutrinários. Talvez isso tenha sido o precursor do gnosticismo completamente desenvolvido que o apóstolo João confrontaria mais de 25 anos depois em suas epístolas. Com exceção de João, que viveu no fim do século, todos os outros apóstolos foram martirizados, e o cristianismo era tido como uma religião extremamente vulnerável. Desse modo, Judas conclama a igreja a lutar pela verdade em meio uma intensa batalha espiritual.
Judas é o único livro do NT que se dedica exclusivamente a confrontar a "apostasia", cujo significado é a deserção da fé bíblica verdadeira (versículos 3,17). Os apóstatas também são descritos em outras passagens, como em II Tessalonicenses 2:10, Hebreus 10:29, II Pedro 2:1-22 e I João 2:18-23. Ele escreveu para condenar os apóstatas e instigar os cristãos a lutarem por sua fé, e pediu o discernimento por parte da igreja e uma defesa rigorosa da verdade bíblica.
Seguiu os exemplos antigos de: Cristo (Mt 7:15; 16:6-12; 24:11.; Ap 2 e 3); Paulo (At 20:29-30; I Tm 4:1; II Tm 3:1-5; 4:3-4); (3) Pedro (II Pe 2:1-2; 3:3-4); e (4) João (I Jo 4:1-6; II Jo 6:11).
Judas está repleto de ilustrações históricas do AT, que incluem: o êxodo (versículo 5), a rebelião de Satanás (versículo 6), Sodoma e Gomorra (versículo 7), a morte de Moisés (versículo 9), Caim (versículo 11), Balaão (versículo 11), Corá (versículo 11), Enoque (versículos 14-15) e Adão (versículo 14). Além disso, Judas descreveu de maneira vívida os apóstatas em termos de caráter e atividades inescrupulosas (versículos 4,8,10,16,18-19). Também tomou exemplos da natureza para ilustrar a futilidade do ensino dos apóstatas (versículos 12-13). Embora Judas nunca tenha comentado sobre o conteúdo especifico desses falsos ensinos, era suficiente demonstrar que a vida pessoal degenerada e o ministério infrutífero desses homens traíam suas tentativas de ensinar o erro como se fosse verdade. Essa ênfase no caráter repete o tema constante com respeito aos falsos mestres e corrupção pessoal deles. Embora seus ensinos sejam inteligentes, sutis, enganosos, atrativos e apresentados de inúmeras formas, a maneira comum de reconhecê-los é observar o que está por trás de sua fachada espiritual e ver a vida ímpia deles (2Pe 2:10,12,18-19).