Leia João 11:1-44
Em mais um dia banal da minha vida, num metrô lotado pela manhã, ouvi as palavras “É errado você estar triste, Deus não se agrada em te ver chorando” de uma tia falando com o sobrinho por videochamadas no celular. Ouvindo e observando, essas palavras pareciam ser o apelo desesperado dela para que a criança parasse de chorar logo: o medo do que Deus pensaria.
Medo de parecer ingrato ou fraco diante de Deus porque os momentos atordoantes do dia a dia o fizeram chorar.
Neste dia, desci do metrô pensativa. O que essa mulher não sabia - e com certeza não se importava - é que eu também vinha bem triste naqueles dias e tendo muitas lágrimas fácil e aleatoriamente rolando pelo meu rosto. Por mais convicta que eu estivesse de sua boa intenção, pessimamente transmitida em suas palavras, me vi pensando sobre qual seria a visão de Deus sobre nossas dores e lágrima, fossem pelo que fossem.
“Jesus chorou” (João 11:35)
Quando paramos pra pensar na soberania de Deus e que Ele já sabe de tudo o que vai acontecer, as lágrimas de Jesus quase perdem o sentido. Cristo sabia que Lázaro seria ressuscitado, Ele sabia que a enfermidade e morte de seu amigo era para glória de Deus.
Mas ele chorou.
Vamos voltar alguns versículos:
“Jesus, vendo-a chorar, e bem assim os judeus que a acompanhavam, agitou-se no espírito e comoveu-se.” (João 11:33)
Jesus já havia dito que essa enfermidade era para glória de Deus. Ora, Maria e Marta também sabiam que as coisas precisavam acontecer dessa maneira, então por que chorar?
Muitos de nós enxergamos o sofrer do outro e o nosso dessa maneira: “se eu creio, por que estou sofrendo? Se ele crê, por que está chorando?”. No entanto, Jesus em momento algum condenou as irmãs, pelo contrário:
Ele chorou com elas.
De fato, Deus é soberano e cada dor que sentimos foi autorizada e prevista por Ele. Muitas vezes, para o nosso refinamento e fé, precisamos aprender a confiar em Deus em meio ao sofrimento e, assim, experimentá-Lo de forma ainda mais intensa.
Mas o sentir nunca foi e jamais será condenável. Nosso Rei é tão bom e misericordioso que ao ver nossa dor, sente também. Ainda que Ele saiba mais do que ninguém quais são os propósitos disso, Ele não desautoriza o nosso sofrimento: Ele se compadece. Não à toa, o Espírito Santo é chamado pelo próprio Cristo de Consolador (João 16). Não à toa, quando estamos sofrendo e chegamos a Deus com toda a vulnerabilidade e dor pedindo ajuda, Ele imediatamente nos resgata e alegra.
Veja, Cristo sofreu. Vemos Ele orar e agoniar ao ponto de soar sangue no Getsêmani clamando a Deus que, se possível, passasse de Cristo o cálice que ele havia de beber: a crucificação. Mas ao fim de sua oração, esta repetida três vezes (jamais pense que Deus se incomoda de te ouvir falar das mesmas coisas e pedir várias vezes), havia uma frase que fazia toda a diferença: “contudo, que seja feita a Tua vontade”.
Sofrer não é errado, parar de olhar para Deus é. Chorar não é errado, não correr para Cristo é. Pedir e clamar não é errado, se rebelar contra a vontade de Deus é. Muitos dos problemas que enfrentamos vêm da nossa incapacidade de administrar nossos sofrimentos de forma santa.
Então, fica meu encorajamento pra que você chore. Se entristeça. Viva o luto, sinta a dor. Mas faça tudo isso no lugar certo: a sua vulnerabilidade deve ser exposta diante de Deus, que não irá julgar e condenar sua dor e lágrimas, mas se compadecer e te consolar.