Originalmente, ambos livros eram um só, chamado, no texto em hebraico de “Reis” por causa da primeira palavra em 1:1. A divisão foi feita para facilitar a cópia desse conteúdo.
A combinação de I e II Reis e I e II Samuel, são uma crônica de toda a história dos reinos de Judá e de Israel, de Saul a Zedequias.
A tradição judaica propôs que Jeremias tenha sido o autor de Reis, mas isso é improvável, porque o acontecimento final registrado no livro (veja II Rs 25:27-30) ocorreu na Babilônia em 561 a.C. Jeremias nunca esteve na Babilônia, mas sim no Egito, e estaria com pelo menos 86 anos de idade em 561 a.C. Na verdade, a identidade do autor não nomeado permanece desconhecida. Como o ministério dos profetas é destacado em Reis, parece mais provável que esse livro tenha sido escrito por um profeta do Senhor, cujo nome não foi revelado, e que viveu no exílio com Israel, na Babilônia.
O livro de Reis foi escrito entre 561-538 a.C. Como o último acontecimento narrado (II Rs 25:27-30) estabelece a data provável mais recente de sua conclusão e, como não há registro do término do cativeiro babilônio em Reis, o livramento do exilio (538 a.C.) identifica a data aproximada de sua redação. Às vezes, essa data e questionada com base na declaração "até hoje" em diversos versículos do livro. Entretanto, é melhor entender essas declarações como se tivessem sido feitas pelas fontes usadas pelo autor, em vez de feitas pelo próprio autor.
É evidente que para compor esse livro o autor fez uso de diversas fontes inclusive, os "registros históricos de Salomão" (1Rs 11:41), os "registros históricos dos reis de Israel" (1Rs 14:19; 15:31; 16:5,14,20,27; 22:39; 2Rs 1:18; 10:34; 13:8,12;14:15,28; 15:11, 15, 21, 26, 31) e os "registros históricos dos reis de Judá" (1Rs 14:29;15:7, 23; 22:45; 2Rs 8:23; 12:19; 14:18; 15:6, 36; 16:19; 20:20; 21:17.25: 23:28; 24:5).
Deve-se fazer uma distinção entre o cenário das fontes do livro e o cenário do próprio autor. O material original foi escrito pelos participantes e testemunhas oculares dos acontecimentos. Eram informações fidedignas, historicamente exatas, a respeito dos filhos de Israel, da morte de Davi à ascensão de Salomão (971 a.C.) até a destruição do templo de Jerusalém pelos babilônios (586 a.C.). Portanto, o livro de Reis registra a história de dois grupos de reis e de duas nações com povos desobedientes, Israel e Judá, que progressivamente se tornaram indiferentes à lei de Deus e aos seus profetas, tomando o rumo do cativeiro.
O livro de Reis não apresenta apenas os fatos históricos exatos, mas também a sua interpretação. O autor, exilado na Babilônia, queria transmitir as lições da história de Israel aos exilados. Especificamente, ele ensinou à comunidade exilada o motivo pelo qual o Senhor condenara Israel ao exilio. O autor estabeleceu, logo no início da narrativa, que o Senhor exigia obediência da parte dos reis à lei mosaica, caso estes quisessem que seus reinados recebessem a sua bênção, e que a desobediência traria o exilio (1Rs 9.3-9). A triste realidade revelada por essa história foi que todos os reis de Israel e a maioria dos reis de Judá “fizeram o mau aos olhos do Senhor". Esses reis maus levaram o seu povo a pecar por não combaterem idolatria, o contrário, acabaram por sancioná-la. Por causa do fracasso dos reis, o Senhor enviou seus profetas para confrontar tanto os monarcas quanto o povo pelo seu pecado e a necessidade de retornarem a ele. Como a mensagem dos profetas foi rejeitada, estes prenunciaram que a(s) nação(ões) seria(m) levada(s) para o exilio (II Rs 17:13-23; 21:10-15).
Como toda palavra profetizada pelos profetas em Reis, essa palavra do Senhor se confirmou (II Rs 17:5-6; 25:1-11). Portanto, Reis interpretou a experiência do povo com relação ao exílio e também os ajudou a entender a razão de terem sofrido o castigo de Deus pela sua idolatria. Também explicou que, do mesmo modo que Deus havia sido misericordioso com Acabe (II Rs 22:27-29) e Jeoaquim (2Rs 25:27-30), estava disposto a ser misericordioso com eles.
O cenário geográfico principal de Reis é toda a terra de Israel, de Dã a Berseba (I Rs 4:25), incluindo a Transjordânia. Quatro nações invasoras exerceram papéis importantes nas questões de Israel e Judá, de 971 a 561 a.C. No século X a.C., o Egito causou impacto na história de Israel durante os reinados de Salomão e Roboão (I Rs3:1; 11:14-22,40; 12:2; 14:25-27). A Síria (Arā) foi uma grande ameaça à segurança de Israel durante o século IX a.C., por volta de 890-800 a.C. (I Rs 15:9-22; 20:1-34; 22:1-4,29-40; 2Rs 6:8 a 7:20; 8:7-15; 10:32-33; 12:17-18; 13:22-25). Os anos de 800-750a.C. (aproximadamente) representaram meio século de paz e prosperidade para Israel e Judá, pois a Assíria neutralizou a Síria e não ameaçou o sul. Isso mudou durante o reinado de Tiglate-Pileser III (II Rs 15:19-20,29). Da metade do século VIII ao fim do século VII a.C., a Assíria aterrorizou a Palestina, finalmente conquistando e destruindo Israel (o Reino do Norte) em 722 a.C. (II Rs 17:4-6) e sitiando Jerusalém em 701 a.C. (2Rs 18:17 a 19:37). De 612 a 539 a.C. a Babilônia foi o poder dominante do mundo antigo, invadindo Judá (o Reino do Sul) três vezes, com a destruição de Jerusalém e do templo tendo ocorrido em 586 a.C., durante esse terceiro ataque (II Rs 24:1 a 25:21).
O livro de Reis concentra-se na história dos filhos de Israel, de 971 a 561 a.C. A passagem de I Reis 1:1 a 11:43 trata da ascensão e do reinado de Salomão (971-931a.C.). Os dois reinos divididos de Israel e Judá (931-722 a.C.) são abordados em I Reis 12:1 e II Reis 17:41. O autor arranjou o material de modo característico, em que a narrativa segue os reis tanto do norte como do sul. Para cada reino descrito, existe a seguinte estrutura literária; cada rei é apresentado com:
seu nome e sua relação com o antecessor;
a data da sua ascensão em relação ao governante contemporâneo do outro reino;
a idade com que subiu ao trono (apenas para os reis de Judá);
a duração do reinado;
o local do reinado;
o nome da sua mãe (apenas para de Judá); e
a avaliação dos espiritual do seu reinado.
Essa introdução é acompanhada de uma narrativa dos acontecimentos que tiveram lugar durante o reinado de cada rei. Os detalhes dessa narrativa variam grandemente. A conclusão de cada reinado contém:
uma citação das fontes;
anotações históricas adicionais;
notas de óbito;
notas de sepultamento;
nome do sucessor; e
em alguns casos, um pós-escrito adicional (por exemplo, I s 15:32; II Rs 10:36).
A passagem de II Reis 18:1 a 25:21 trata do tempo em que apenas Judá existia (722-586 a.C.). Dois parágrafos de conclusão tratam dos acontecimentos depois do exilio babilônio (2Rs 25:22-26;27-30).
Três temas teológicos são destacados em Reis: