O título da epistola sempre foi "I João". É a primeira e mais extensa de uma série de três epistolas que levam o nome do apóstolo João. Uma vez que a carta não identifica uma igreja, lugar ou pessoa em particular como destinatário, é classificada como uma "epístola geral". Embora I João não exiba algumas das características gerais de uma epístola comum daquela época (por exemplo: não há introdução e nem saudação de inicio ou conclusão), tanto o seu tom íntimo como o seu conteúdo indicam que o termo "epístola'" ainda se aplica a ela.
A epístola não identifica o autor, mas o testemunho forte, consistente e mais antigo da igreja a atribui ao discípulo e apóstolo João (cf. Lc 6:13-14). Esse anonimato confirma de modo contundente a identificação por parte da igreja primitiva da epístola com o apóstolo João, pois somente alguém com a posição bem conhecida e preeminente de João como apóstolo poderia escrever com uma autoridade tão inconfundível, esperando total obediência de seus leitores, sem se identificar claramente (por exemplo: 4:6). Ele era bem conhecido dos leitores, por isso não havia a necessidade de mencionar o seu nome.
João e Tiago, seu irmão mas velho (At 12:2), eram conhecidos como "filhos de Zebedeu" (Mt 10:2-4), aos quais Jesus deu nome de "filhos do trovão" (Mc 3:17). João era um dos três companheiros mais íntimos de Jesus (juntamente com Pedro e Tiago), sendo uma testemunha ocular e participante do ministério terreno de Jesus (1:1-4). Além das três epístolas. João também foi autor do quarto evangelho, no qual se identificou como "O discípulo a quem Jesus amava e como o que estava reclinado ao lado dele na Última Ceia. Também escreveu livro de Apocalipse (Ap 1:1).
É difícil precisar a data em que essa epístola foi escrita porque não existe nenhuma indicação histórica clara nesse sentido em I João. O mais provável é que João tenha composto essa obra João na última parte do século I. De um modo consistente, a tradição da igreja identifica João em sua idade avançada como um homem que estava vivendo e escrevendo ativamente durante esse tempo em Éfeso, na Ásia Menor. O tom da epístola apoia esse argumento, uma vez que o escritor passa a forte impressão de que é muito mais velho que seus leitores (por exemplo: "filhinhos"). A epístola e o evangelho de João refletem um vocabulário e um modo de se expressar semelhantes. Essa semelhança leva muitos a datarem a escrita das epístolas de João pouco depois de ele ter composto o seu evangelho.
Como muitos acreditam que o evangelho foi escrito durante a última parte do século primeiro, também preferem uma data semelhante para as epístolas. Além disso, é muito provável que a heresia que João combate reflita os princípios do gnosticismo o qual estava em seus primeiros estágios durante o último terço do século I, quando João estava escrevendo ativamente. Pelo fato de não ser feita nenhuma menção à perseguição sob o governo de Domiciano, que começou por volta de 95 d.C., ela pode ter sido escrita antes que a perseguição começasse. À luz desses fatores, uma data aceitável para I João é cerca de 90-95 d.C. É provável que tenha sido escrita de Éfeso para as igrejas da Ásia Menor sobre as quais João exercia liderança apostólica.
Embora estivesse muito avançado em idade quando escreveu essa epístola, João ainda estava ativamente ministrando às igrejas. Era o único apóstolo sobrevivente que, além de testemunha ocular, teve associação intima com Jesus ao longo do seu ministério terreno, morte, ressurreição e ascensão. Os pais da igreja (por exemplo: Justino Mártir, Irineu, Clemente de Alexandria, Eusébio) indicam que, depois desse tempo, João viveu em Éfeso, na Ásia Menor, cumprindo um programa evangelístico longo, supervisionando muitas das igrejas que haviam sido fundadas e conduzindo um ministério literário extensivo (por exemplo: as epístolas, o evangelho de João e Apocalipse). Um pai da igreja (Papias), que teve contato direto com João, descreveu-o como uma "voz viva e constante", Como o último apóstolo que restava, o testemunho de João tinha grande autoridade entre as igrejas. Muitos ansiosamente tentavam ouvir aquele que havia tido contato pessoal com o Senhor Jesus.
Éfeso (cf. At 19:10) ficava dentro do centro intelectual da Ásia Menor. Como havia sido predito anos antes pelo apóstolo Paulo (At 20:28 31), os falsos mestres, levantando-se de dentro da própria igreja, saturados com o clima prevalecente de correntes filosóficas, começaram a influenciar a igreja com falsas doutrinas, distorcendo os ensinos apostólicos fundamentais. Esses falsos profetas defendiam novas ideias que, por fim, ficaram conhecidas como "gnosticismo" (da palavra grega "conhecimento"). Depois da batalha paulina pela liberdade da lei, o gnosticismo foi a heresia mais perigosa que ameaçou a igreja primitiva durante os três primeiros séculos. O mais provável é que João estivesse combatendo os princípios dessa heresia virulenta que ameaçava destruir os fundamentos da fé e as igrejas.
Essa heresia (falso ensino) apresentava duas formas básicas:
Essas visões heréticas destroem não apenas a verdadeira humanidade de Jesus, mas também a expiação, pois Jesus não apenas foi verdadeiramente Deus, mas também um verdadeiro Homem (e fisicamente real) que de fato sofreu e morreu na cruz para que pudesse ser o sacrifício aceitável e substitutivo pelo pecado (Hebreus 2:14-17). A visão bíblica de Jesus confirma tanto a sua total humanidade como também a sua total divindade.
A ideia gnóstica de que a matéria era má e somente o espirito era bom levou à noção de que o corpo deveria ser tratado com severidade, um tipo de ascetismo (por exemplo: Cl 2:21-23) ou de que o pecado cometido no corpo não tinha relação com o espírito de uma pessoa e não exercia nenhum efeito sobre ele. Essa noção levou alguns, especialmente os oponentes de João, a concluírem que o pecado cometido no corpo físico não era relevante, a submissão total à imoralidade era permitida, a pessoa podia até mesmo negar que o pecado existia (1:8-10) e negligenciar a lei de Deus (3:4). João enfatizou a necessidade de obedecer às leis de Deus, pois definiu o verdadeiro amor a Deus como obediência aos seus mandamentos (5:3).
A falta de amor pelos irmãos na fé é uma característica dos falsos mestres, uma vez que eles reagem contra qualquer pessoa que rejeita a nova maneira de pensar deles (3:10-18). Eles separavam seus seguidores enganados da comunhão com aqueles que permaneciam fiéis ao ensino apostólico, levando João a responder que essa separação visivelmente demonstrava que aqueles que seguiam os falsos mestres careciam da salvação genuína (2:19). O afastamento deles deixava os outros cristãos, que permaneciam fiéis à doutrina apostólica, abalados. Respondendo a essa crise, o apóstolo já idoso escreveu para tranquilizar os que permaneciam fiéis e para combater essa séria ameaça à igreja. Uma vez que a heresia era tão perigosa e o momento era tão crucial para igreja, que corria o risco de ser devastada pelo falso ensino, João, de maneira gentil e amorosa, mas com autoridade apostólica inquestionável, enviou essa carta às igrejas em sua esfera de influência para deter essa praga difusa da falsa doutrina.
À luz das circunstâncias da epístola, o tema geral de I João é "um novo chamado aos fundamentos da fé" ou "a volta aos princípios básicos do cristianismo", o apóstolo lida com certezas, e não com opiniões ou conjecturas. Expressa a natureza absoluta do cristianismo em termos muito simples; termos que são claros e indiscutíveis, sem deixar dúvida alguma quanto à natureza fundamental dessas verdades. O tom é cálido, em forma de conversa e, sobretudo, amoroso, como o de um pai tendo uma conversa terna e íntima com seus filhos.
A primeira epístola de João também é pastoral, escrita do coração de um pastor que está preocupado com a sua congregação. Como um pastor, João transmitiu ao seu rebanho alguns princípios muito básicos, mas vitalmente essenciais, que lhes asseguravam os pontos básicos da fé. Queria que eles tivessem alegria com relação a certeza de sua fé, e não ficassem preocupados com as falsas doutrinas e deserções de alguns (1:4).
No entanto, o ponto de vista do livro não é somente pastoral, mas também polêmico; não somente positivo, mas também negativo. João refuta os desertores com a sã doutrina, sem mostrar tolerância para com aqueles que distorcem a verdade divina. Ele rotula aqueles que se apartam da verdade de "falsos profetas" (4:1), “os que os querem enganar" (2:26; 3:7) e “anticristos" (2:18). Ele explicitamente identifica como demoníaca a fonte fundamental de todo esse afastamento da sã doutrina (4:1-7).