Cumpra seu dever no presente. Confie em Deus para o futuro.


“As águas iam-se escoando continuamente de sobre a terra e minguaram ao cabo de cento e cinquenta dias. No dia dezessete do sétimo mês, a arca repousou sobre as montanhas de Ararate. E as águas foram minguando até ao décimo mês, em cujo primeiro dia apareceram os cimos dos montes” (Gênesis 8:3-5)

A história de Noé é um modelo do quanto uma fé simples e uma confiança garantida podem dar sala e espaço para o agir de Deus nas nossas vidas.

Coloque-se no lugar de Noé. Imagine você, com todos os seus anseios e o desejo pela previsibilidade, precisando construir uma arca imensa por um suposto dilúvio que não dava sinal ou evidência, mas porque Deus mandou. E, então, quando o dilúvio chega, você, sua família e muitos animais estão dentro da arca, assistindo à destruição de tudo ao redor e, mesmo sem querer admitir, pensando que Deus te disse para entrar na arca, mas não deu qualquer previsão de quando você poderia sair dela.


Penso que podemos assistir a esse cenário em contextos pontuais da nossa vida. Lugares em que estamos e não sabemos quando Deus irá nos tirar dele, seja esse lugar físico, mental ou espiritual. Projetos que você concebeu mas ainda não viu nascer, incômodos que trazem apenas a sensação de impotência enquanto você se questiona a razão de Deus ter permitido que você visse e sentisse. Angústias que parecem intermináveis e a sensação de que Deus está atrasado, esquecido ou sequer se importa contigo.

E imagino que esses cenários são os nossos dilúvios. Não sucumbimos porque a arca foi construída, seja ela uma experiência que te impede de olhar para qualquer outro lugar se não para Cristo, seja ela uma verdade bíblica que você jamais se esquece, seja ela a lembrança do histórico de Deus com Seu povo e a convicção de que Ele nunca falha, jamais se atrasa e não consegue esquecer os Seus. Acredito que a arca mais forte que nos carrega é a graça de Cristo e Sua bondade, que nos acompanham todos os dias das nossas vidas e tornam nossos caminhos planos de modo que não tropeçamos, sequer caímos.

E nesse lugar, devemos nos lembrar da nossa tarefa: cumprir com nosso dever no presente e confiar em Deus para o futuro. Buscar sua face, entregar nosso coração, colocar nossa vida aos pés da cruz todos os dias, nos dedicar às responsabilidades que Ele nos conferiu hoje e confiar n’Ele para o amanhã.

Mas também podemos assistir a esse cenário quando pensamos no custo da obediência. No custo de sermos discípulos de Jesus, pessoas que renunciam a si e ao mundo em busca de agradar e se achegar ainda mais a Deus, que tomam sua cruz e, muitas vezes sem entender, seguem a Cristo. Nós cumprimos com esse dever aqui e agora, confiando que Deus está no controle do nosso futuro.

Esse cumprir vem com afastamentos, recusas, perdas de oportunidade, receios, rejeições. Sofremos em nós aquilo que Cristo sofreu aqui, afinal, é a vida d’Ele que está em nós e, se o mundo o crucificou, o que deveríamos esperar? Qual deveria ser a porção que esse mesmo mundo nos dá? Então, padecemos, nos angustiamos, esperamos, perguntamos e persistimos porque Deus nos dá ânimo e força para continuar. Somos convidados a esse caminho sem qualquer previsão de quando o alívio irá chegar. Sem previsão de quando estaremos face a face com Cristo, sem previsão de quando os sofrimentos terão fim e crendo que as aflições do tempo presente não se comparam com a glória que há de ser revelada.

A nossa obediência nos faz construir a arca. Cumprimos a ordem, o dever. Renunciamos, obedecemos. Aos olhos do mundo, loucura. Mas quem somos aos olhos do Cristo ressurreto? Será que temos essa confiança garantida de que Cristo virá e com Ele a nossa recompensa?

Desejo que essa reflexão venha trazer um novo olhar sobre os pequenos cenários do seu dia a dia. Cada espera que é consumada, cada oração respondida, cada tempo de adoração que traz paz ao coração, cada tempo de clamor que você começa de um jeito e termina de outro, cada amanhecer que você pode declarar que certamente a bondade e a fidelidade do Senhor te permitiram descansar tranquilo e ver mais um dia, que a cada momento como esse você se lembre: Deus cumpre suas promessas. Deus nunca dará uma ordem ao seu povo para que sejam humilhados.

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